O MEU SONHO NO FIM DO VERÃO
Publicado por Bruno em 19 Jan 2012Texto de Rubem Leite
Morro da Favela por Andre Diniz e Maurício Hora
Obax anafisa.
“Obrigado, amigo! Pelos erros que me emprestastes, pois com eles pude corrigir os meus”.
Silvestre C. Cabral¹.
Eu preparo um cronto que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Gostou? Parafraseei Drummond no poema Canção Amiga por dizer por que escrevo. Poucos sabem, mas havia décadas atrás uma nota de cinquenta – Não sei qual moeda – que tinha esse poema. Mas vamos ao cronto.
Estou nas pedras, meditando. Cheguei ainda no escuro pensando na Prefeitura de São Paulo por dar – rarrarrá – R$2.000,00 para os moradores da Favela do Moinho comprar uma nova residência em algum lugar. É como disse Maria Ettiene, a mãe do autor, “Com isso ‘ele’ deu declaração de não entender nada de dinheiro ou de ser, ‘ele’, desprovido de inteligência. Mas pode ser que ‘ele’ esteja ‘só’ de gozação com a cara do povo”. Sobre isso, por isso e muito mais os artistas dizem faça-se a luz. Então admiro a beleza do sol nascendo emprestando cores de chumbo, prateado, vermelho, laranja e dourado à natureza ao meu redor. A paz me envolve ao som da cantiga do mar. O céu me encobre com seu manto colorido.
Ouve! Som de berimbau! Com ele saio de minhas reflexões e comparações. Levanto-me e procuro o dono da música e o encontro noutro grupo de rochas, antes do meu. (Como tenho direito de tomar posse da natureza?) O jovem me viu e sorriu parando de tocar. Gostei dele. Acho que faremos amizade. Dois artistas sentem uma certa afinidade, mesmo que não se conheçam. Aproximamo-nos. Eu, Benito Bardo Junior, e ele, Roberto Warm Simas. Falamos sobre o nascer do sol e não paramos de papear. Fizemos uma coisa engraçada. Cantei com minha voz horrível e ele acompanhou no berimbau “Quero ver o sol atrás do muro \ Quero um mundo feito sem porta ou vidraça \ Quero voar de mãos dadas com você \ Fazer cristais com gotas de orvalho \ Beijar de leve a face da lua”². Já pensou Elis na minha trágica voz e ao maravilhoso som do berimbau? Uarrarrá! Já são quase seis da manhã e continuamos falando até às oito. Sou escritor e ele dançarino. Dizemos sobre futebol, arte, cultura, natureza, amizade, mulher, sexo, religião, Deus. Roberto em certo momento comenta política. Respondi-lhe “Mas o moinho da favela queimou!”. Ele respondeu “queimou, deixa queimar”. E continuamos: – A favela do moinho queimou! – queimou, deixa queimar. – ô ô ô meu senhor… – Ordem superior: – “abre a roda pra sambar”. Depois do poema³ nos deixamos marcando para de noite um encontro a quatro. Eu e minha companheira, ele e sua esposa.
Vejo-o partir encoberto pelo brilho do sol. Vou para uma sombra em algum quiosque pensar em minha namorada, Marlene. A gente se gosta. Nós nos amamos, um ao outro? Os barcos de turistas sumindo, sumindo, sumindo. No mar um casal trepa e só agora percebo. Satisfaço o tesão deles observando e então me levanto e vou embora pensar em coisas melhores. Pensar na Marlene e pensar ainda mais no que disse Maysa “Não, não! Não, não faça isso. Científico é uma coisa programada. Criação é uma coisa que nasce. Nasce pra gente, nasce com as nossas dores, nasce com as nossas… neuroses, com as nossas… os nossos sorrisos. Não, não, não, não! Criação é uma coisa muito importante. O científico também é. Só que… científico é científico, né… Ou não?”*. Encosto-me em uma castanheira na praia e sonho conosco – eu e Marlene – fazendo loucuras até ela me acordar com sua mão no meu peito. Beijamo-nos, conto-lhe o sonho e falo do encontro marcado (não o de Sabino).
Vinte horas e…
O pirilampo Rubem Leite – palavras da imagem.
O bem-te-vi Tiago Costa – imagem das palavras.
Em banto, obax anafisa significam flores e pedras preciosas.
Os versos e a ilustração são nossas flores para você
e fazemos votos de que encontre neles pedras preciosas.
Ofereço o cronto a todos os meus sobrinhos nascentes em janeiro:
Elizabeth M. L. Mendes, Mariana C. W. Leite, Thaís L. M. Almeida e Raul F. M. Leite.
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O texto que deu origem ao cronto acima:
“O Meu Sonho no Fim do Verão”, escrito em 07 de abril de 1993;
E reescrito entre 12 e 18 de janeiro de 2012 com meu nome.
Desde minha adolescência eu escrevo até que em 1993 criei o que chamei de “Cadernos de Ensaios”. Muito do que escrevi lá apenas deixei fluir. O que vocês viram aqui são alguns textos escolhidos do Caderno de Ensaio que compartilho desejando que servisse como incentivo para criação do hábito de escrever, de registrar suas impressões e compartilhá-la com o mundo.
Veja:
¹ A frase me serviu de mote em 1.993 para o cronto. Olhando no google achei-a no seguinte endereço: http://pensador.uol.com.br/autor/silvestre_c_cabral/
² Quero, de Thomas Roth.
³ Ordem de Despejo, de Willian Delarte – http://williandelarte.blogspot.com/2012/01/ordem-de-despejo.html
* Maysa. – Ver: http://www.youtube.com/watch?v=lIrEewDVEhQ
Serviu-me ainda de mote em 2012: http://www.youtube.com/watch?v=dbYWactOEBo&feature=share
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