A Rebelião dos Museus

por Raymundo Netto
Especial para O POVO

Fortaleza é a cidade do "aqui teve", "aqui foi"... um lugar sem memória, cujo futuro é construindo sobre os escombros do passado. Em busca desta memória perdida, Raymundo Netto faz um protesto/homenagem ao Dia do Museu.

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Carlus

Prezado leitor, você conhece alguém que goste de juntar no canto do quarto, em cima do guarda-roupa ou naquele puxadinho do quintal um monte de cacarecos, caixa de sapatos, ferro-velho ou outras antigalhas que não servem para nada, a não ser juntar pó e teia de aranha? Então, meu amigo, olha o respeito: você está diante de um museófilo! Pois sim, no Dia do Museu (18 de maio), a praça do Ferreira, o "coração da cidade", quase enfartou! Soube não?

Neste dia, quando cheguei à praça, notei um grupo de índios Pitaguarys, Tremembés e Tapebas que dançavam o torém em círculos, dirigidos por um gordo pajé a balançar suas maracas, mantendo, aos berros, amarrado feito prisioneiro à Coluna da Hora, o Oswald Barroso: "A memória é universal, a memória é universal!".

Ao lado do Excelsior Hotel, o memorialista Marciano Lopes, assistia à cena, tranqüilo, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça, agudando a vista com caretas, enquanto os poucos fios de cabelo esvoaçavam ao famoso vento encanado. Perguntei ao Marciano se ele não achava que deveríamos tentar libertar o Oswald:

- Eu, ir acolá? Está louco? Vão acabar me prendendo também! Prefiro ficar por aqui mesmo, tentando relembrar a saudade das cenas d'antanho ... Acabou-se tudo, Raymundo! Na cidade, acabou-se tudo... - falou-me, com tristeza.

Sem poder discordar, deixei-o para ir cumprimentar o Nirez, que avistei, de longe, a enfiar-se por debaixo de um pano preto de um velho lambe-lambe a fotografar:

- Olá, Nirez, o que você está fazendo por aqui?

Mascando alguma coisa que nem sei o que, disse-me estar tirando novas fotos antigas da cidade. Novas fotos antigas? Não entendi... E assim, me revelou, em sigilo, o ex-segredo de seu grande acervo iconográfico: aquele lambe-lambe era, na verdade, uma caixa mágica! Ele batia as fotos no presente, mas ela as revelava como no passado! A foto já saía até amarelada... Que maravilha, Nirez! Encantado com a descoberta, ofereci, em troca de sua máquina, a minha coleção de garrafinhas de Coca-Cola, um álbum de figurinhas completo do Fantasma , um isqueiro a gás de algibeira e um ferro de passar a carvão, o que de nada adiantou:

- Troco nada, homem... - sorriu e assobiou, a mangar da minha "inocência", uma canção antiga. Frustrado, deixei-o trabalhar. Bem, eu sei que depois ele me empresta... Será?

Em frente ao Palacete Ceará, outro ajuntamento, alegre, aplaudia. Aproximei. Ora, se não era o Christiano Câmara e a sua tão querida Douvina a dançarinar ao som de Neusa . Quando me viram, pausaram e vieram ter comigo. O Christiano, a reclamar:

- É impressionante, Raymundo! O Ceará briga para trazer o rio São Francisco para cá, mas não briga para salvar o rio Pajeú. É muita ingratidão, rapaz... Logo o Pajeú, o berço da nossa cidade? Querem trazer o Velho Chico para matá-lo também? É impressionante!

"Românticos"

Enquanto falava, vi pousar, no meio da praça, uma enorme borboleta de asas gotejantes em aquarelas coloridas. De seu dorso, desceram o Estrigas e a dona Nice Firmeza que vinham do sítio do Mondubim para assistir à festa e fazer um piquenique junto dos amigos. Acenavam, com a simpatia acolhedora de sempre.

Também estava por lá, a protestar, o professor Liberal de Castro:

- Vocês são muito românticos... Para que isso? Para quê? Se for para criar uma cidade cenográfica só "para turista ver", é melhor derrubar tudo de uma vez! O cearense não conserva nada... Vai ver lá no Cemitério S. João Batista. Pelo cemitério, se tira o nosso cearense. Faz tudo do jeito que quer! Constrói onde e como lhe convém. Já prestou atenção nas calçadas? É uma calçada diferente da outra: alta, baixa, de cimento, com cerâmica... Duvidando, se constrói até no meio da rua! Mas a culpa também é sua, Raymundo! Por que não escreve logo para eles e diz que a nossa cidade está se acabando? Fortaleza, hoje, é a cidade do "aqui teve" e "aqui foi"... e pronto! Não sei se você está me entendendo...

- Sim, Liberal, claro que entendo. Não vou longe, não. Basta ver o nosso rio Cocó. Se deixarmos, cobrem-no com terra só para construir um poleiro de executivos em cima!

Qual surpresa: uma grande passeata despontava. À frente, representando o Museu do Ceará, o Bode Yoyô, com óculos escuros e barbicha feita, agitava as patinhas e o estandarte do Caldeirão dos Jesuítas, enquanto cantava: "We are the world, we are the children..." Logo atrás, a batina do padre Cícero, primeiro santo não canonizado do Brasil, abençoava o movimento, seguido pela tropa de punhais de Lampião e pela escrivaninha de Rodolpho Teóphilo que galopava ligeira fazendo tremular a bandeira da Padaria Espiritual. As balas de canhão e as garrafas do futuro Museu da Indústria, lampeiras, comemoravam a liberdade! A marcha se dava ao som animado da banda de eletrolas, vitrolas e rádios do Museu da Imagem e do Som. Os demais participantes saíam do grupo para fixar nas paredes, portas e janelas, os quadros do Aldemir Martins, Raimundo Cela, Barrica, Mário Barata e Antônio Bandeira que vinham dos museus de arte. Pela Major Facundo, porém, a fanfarra era ainda maior: uma carreata do Museu do Automóvel vinha a toda manivela, sob a liderança de um Ford 1917.

Fachadas

Daí, as edificações das lojas do Centro começaram a se revoltar contra os tapumes de lata e os imensos letreiros e, franzindo os telhados e platibandas, começaram a desprender-se deles, jogando-os ao chão, revelando, então, uma riqueza de fachadas art nouveau e déco ocultas, que nem sabíamos ainda existir. Os sobrados e as outras casas clamavam pela prefeitura: que ela se pronunciasse e criasse leis de incentivo à conservação! A Catedral Gótica, apontando com os dois indicadores aos céus, gritava em voz gutural: Ele está vendo, hein? Ele está vendo!!!

Do meio da agitação, um bonde esverdeado com tabuleta de madeira, tendo escrito em letras vermelhas "PerCursos Urbanos", dobrou, rangente, a esquina. Como motorneiro, de quepe, manuseando a manivela e puxando a campainha, estava o Zenilo Almada. Parou diante dos meus amigos, convidando-os para dar uma volta até o fim da linha do Outeiro. Ia já tomando meu assento, quando o Júlio Lira, que estava no bonde, me disse:

- Raymundo, você "já pegou o bonde andando", por isso, o seu lugar é no banco de trás!

Chateado, cedi lugar às "autoridades", e sentei no quinto banco, enquanto a viagem prosseguia. E que fim levara o Oswald?, pensei... Ali, os passageiros firmaram umas falas adoráveis e curiosas com gosto de quem revive e revigora a nossa História às futuras gerações. Mas, não sabiam eles, logo atrás de nosso bonde, vinham os vagões do Metrofor, guiados por engenheiros que, por não gostarem de traçar curvas, passam por cima de tudo que encontram pela frente, inclusive, da nossa memória. Que Deus nos proteja, Amém!

Os citados:

Marciano Lopes (jornalista, pesquisador e escritor de livros, dentre eles Royal Briar ), Zenilo Almada (advogado, autor de O Bonde e Outras Recordações ), Nilo (Estrigas) e Nice Firmeza (artistas plásticos criadores do Mini-museu Firmeza), Christiano Câmara - colecionador e pesquisador - e Douvina (não apenas criaram um museu, como moram dentro dele!), Miguel Ângelo de Azevedo/Nirez (jornalista e historiador, criador do Museu Cearense da Comunicação e autor de Fortaleza, Ontem e Hoje ), Liberal de Castro (arquiteto, profundo conhecedor do Patrimônio Histórico do Ceará), Oswald Barroso (escritor e teatrólogo), PerCursos Urbanos (projeto de resgate da memória cearense criado pela ONG Mediação de Saberes em parceria com o Centro Cultural Banco do Nordeste) e Bode Yoyô ("boêmio" pertencente a uma antiga firma inglesa que, após seu falecimento, em 1931, foi empalhado e doado ao Museu Histórico, compondo o acervo atual)

Raymundo Netto é escritor, autor do romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, membro do Conselho Editorial de CAOS Portátil - um almanaque de contos. Contato: raimundo.netto@globo.com

 

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