PRODUTO OU RESULTADO
por Rubem Leite
08-11\6\09
“Teatro não é produto, é uma experiência. Ele não tem o compromisso de agradar, mas de despertar algo em quem vê. E isso demanda um esforço humano de entendimento da vida que é de uma só dimensão que por si só justifica sua realização”.
(Paulo Azevedo – artista de teatro
Jornal de BH O Tempo – 10-02-09).
Na matéria acima, Paulo Azevedo ainda questionou se temos condições de trabalhar da forma como pensamos ser necessária como artista. Como não sou besta não tentarei responder a questão acima e nem qualquer outra indagação. Ou será que tentarei? São tantas as indagações... Uarrarrá. Mas como digo sempre, apenas “sinto e expresso o que sinto”.
Mandei para A Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Ipatinga) um projeto de publicação de um livro a ser distribuído nas bibliotecas de escolas de segundo grau e de 5ª à 9ª série. Por ocasião do envio, tirando algumas dúvidas, a comissão que julga os projetos disse-me que não posso pedir cachê para o autor porque o livro é um “produto”. Os artistas cênicos, porém, podem pedir cachê porque o trabalho deles é um “resultado”. Penso que na verdade tudo é produto e resultado. Um livro é o resultado\produto palpável de toda uma série de trabalho do autor enquanto uma peça de teatro é um produto\resultado impalpável. Mas no final das contas e no “afligir dos ovos” tudo é fruto de trabalhos árduos.
Sábado passado, encontrei com dois membros da comissão. Perguntei para um deles – Elias – quando sairia o resultado, uma vez que estavam atrasados já quase um mês. Ele me disse que já tinham o resultado, mas que seria publicado na terça ou na quarta. Mais tarde, na mesma noite, vi o meu mais amado amigo – Didi Peres – outro membro da comissão. Mas como ele não me disse nada percebi que meu projeto não tinha sido aprovado.
Na terça-feira, ontem, fiquei sabendo o resultado oficial confirmando – “meu caro Uótissom” – minha dedução. Uma parte de mim gostaria que Didi tivesse dado um “jeitinho” e “me ajudado”. Vergonha! Mas isso me veio à cabeça. Mas daí não passou. Outra parte minha, tão pequena quanto a anterior, questionou minha competência literária, minha competência artística. – Você que me ler o que acha? Envie sua resposta para meu email: rubemleite@notaindependente.com.br –. E uma parte maior e mais verdadeira ficou orgulhosa por Didi não ter feito isso. Mais uma prova que tenho e que compartilho com você do caráter dele. Sei escolher amigos. Confesso com muito orgulho que sou orgulhoso. Que se algo meu fosse lido por pena ou por falcatrua eu me sentiria extremamente incomodado e insatisfeito. Empanando o meu brilho. Fora de mim uma festa. Dentro, uma visão de incompetência. Eu sou competente. Sou bom. Não sei ainda o que impediu sua aprovação e uma vez descoberto tornarei melhor os meus projetos futuros. Mas tenho consciência de minha capacidade e como sempre afirmo “humildade não é um de meus defeitos”... Uarrarrá. Humildade!? O que muitos chamam de humildade nada mais é que auto-menosprezo ou fingimento. Por isso, pelo seu uso indevido, não gosto muito dessa palavra. Humildade é reconhecer e saber o que se é. Quais são suas qualidades. Quais são seus defeitos. Onde erra. Onde acerta. Isso é humildade. Mas como muitos a confundem, prefiro me declarar natural.
Ah! Como sonho com a época em que os artistas serão respeitados como cidadãos que são. Que não haja mais preconceitos contra a nossa “espécie”. O preconceito é tamanho que quando uma criança faz coisa errada ela fez... arte.
Se bem que não quero fazer o que é certo se isso implica em ter a sensibilidade de uma pedra. Se isso implica em não ser feliz porque querem que sejamos ou, mais provável, que finjamos ser o que querem ou o que dizem que devemos ser, o que devemos fazer. Não! Eu prefiro ser Renato Russo, Leila Diniz, Maysa Matarazzo, Patrícia Rehder Galvão (Pagu), Luz Divina (Luz del Fuego), Agenor de Miranda Araújo Neto (Cazuza) e por aí vai.
Quero trabalhar naquilo que sou: artista. Artista e arteiro. Viver de meu trabalho. Como sonho que arte seja reconhecida como trabalho. Trabalho digno. Trabalho que não muda o mundo. Muda o homem, que muda o mundo. Como bem dizem Brecht e Quintana. Como sonho que parem de ver a arte como [“lindinha”, mas por ser “inútil” não merece pagamento. Já basta publicar livrinhos]. Que parem de ver o artista como vagabundo ou excêntrico. Recentemente, uma conhecida me elogiou por eu ter feito à barba, que estava horrível. Ao dizer-lhe que a usava por causa de um trabalho (sou também ator) recebi como resposta “É verdade! Artista é sempre molambento”. Depois dessa falar o quê? Uarrarrá. Sobre a inutilidade da arte repito as palavras da ledora Sandra Bittencourt “útil, inútil e fútil”. Pense você no que isso significa.
Quem me conhece sabe que sou religioso. Não tão religioso quanto os políticos (afinal, para vender a alma tem que acreditar que isso existe e que tem alguém disposto a comprá-la...), mas sou religioso. Creio em Deus, o Todo de Tudo, que só criou a Verdade, o Bem e o Belo. E como sou poeta e religioso sempre pensei no nascer do sol como uma das mais belas obras de arte. Hoje, estudando a palavra arte, percebi que ela dá origem a artificial, ou seja, Deus não é exatamente um artista porque tudo que Ele cria é natural enquanto um artista, por ser humano, só faz o que é artificial. Assim, a arte tem uma profunda natureza humana. Se bem que, penso, Deus Se realiza através do homem (Feministas, acalmem-se. Uso a palavra homem não com sentido de macho, sexo masculino e sim no seu sentido original de espécie), portanto a arte, também tem um toque divino. Porque como diz o Dr. Masaharu Taniguchi “Deus Se manifesta através da Verdade, do Bem e do Belo”. E nada melhor que a arte para combater a desumanidade humana. Estou me fazendo entender? Ah! Só estou complicando... Que bom. Sinal que estamos pensando... Não sei se chegaremos a alguma conclusão, mas que estamos pensando estamos.
Lembro-me de quando o Grupo Teatral Farroupilha apresentou o seu trabalho “O Figo é uma Flor que se Abre para Dentro” houve pessoas que acharam despropositadas a nudez dos dois atores (Didi Peres e João Carlos) enquanto uma senhora de 80 anos disse “A gente faz assim mesmo. Às vezes passamos à vida toda tentando nos mostrar para quem amamos e não somos vistos”.
E por aqui fico. Inté!