I
antes que o dia venha
tenha fogo em fogão à lenha
e cozinha cheirando a café:
minha avó de pé!
II
logo
o galo estende longo seu pescoço
e estende até outro galo seu mais longo canto
pela madrugada
tecendo esta manhã de poema cabralino
III
livre
o canário da terra inda orvalhada
trina e inaugura a claridade azul
IV
na manhã palha
o gado muge e rumina
os primeiros raios de sol
V
no curral o cheiro de leite
e o cheiro de estrume misturando-se
ao cheiro de capim meloso que vem dos pastos
VI
nos campos
flores e beija-flores
primaveram-se ao vento
onde a vida vale muito mais
VII
borboleta pousada
no cabo da enxada:
meu tio cansado
de plantar o amanhã!
VIII
eis o pomar
onde cheira a flor-de-laranjeira
eis o pomar
onde frutos sazonados
mamão goiaba manga abacate
bicados por assanhaços e sabiás
eis o pomar
onde o regato e os pés-de-jabuticaba
em que minha mãe colhera a juventude
eis o pomar
onde o mais romântico dos pés-de-romã!
IX
eis a horta
onde o sonho deste menino
trava-se no amargo
do jiló cotidiano
X
depois
galinhas e pintainhos ciscando
na memória
XI
a água de mina mina
e escorre saudades
na bica da infância
pela fazendas dos meus avós
XII
à tarde
esta roça põe sons
em nossos ouvidos:
sirenes de seriemas
vôos piados
garras e algazarras
de gaviões ensolarados
zum zumbido de vespas
farfalhar de árvores
chiado de mico-estrela
e miado ecológico de jaguatirica
a nos precaver:
quem mata mata
deve morrer!
XIV
a noite esconde o crepúsculo
dos girassóis no brejo
onde sapos parnasianos assuntam em coaxos:
acho que acho que acho acho...